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Dudu e mais 10

Creio que daqui a cinquenta anos, quando, talvez, eu não exista mais, continuando porém a existir o Palestra, o vezo que toma conta dos palestrinos a cada derrota, também continuará, sem esperanças de desaperecer.

Na hora do revez, o palestrino limita-se a criticar. Critica em primeiro lugar a diretoria, critica o campo, critica o juiz, critica os jogadores, critica a si mesmo. Moléstia sem cura!

Foi assim que o fundador do Palestra Itália, Vincenzo Ragognetti, definiu nas páginas da Revista Vida Esportiva Paulista, em 1941, o perfil dos palestrinos, a qual reproduzimos e nos identificamos em gênero, número e grau.

Afirmação oportuna e que pode ser repetida em diversos momentos de nossa história. Um espelho de nossa alma. Uma radiografia do nosso DNA alviverde. Uma fratura exposta do nosso jeito peculiar de entender as coisas do nosso querido Palmeiras. Sempre com uma passionalidade visceral.

No início do Palestra, em 1920, o alvo da torcida era o craque Ministro. Quando as coisas não iam bem, ele era o culpado. Depois que Ministro deixou o Palestra, o alvo passou a ser Heitor Marcelino. Cada vez que o maior artilheiro da história esmeraldina iria jogar contra o Paulistano, diziam que ele afinava. Não queria jogar. Fazia corpo mole.

Quando Heitor pendurou as chuteiras, o alvo foi o atacante Romeu Pelliciari. Cada derrota do clube alviverde, ele era tratado como pipoqueiro. Pelliciari foi embora e o alvo passou a ser o meia-atacante Lima. Diziam que nos Derbys ele não era de nada.

No final dos anos 70 foi a vez do nosso bode expiatório se chamar Jorge Mendonça. Baladeiro, cachaceiro, indolente era alguns dos rótulos colados na testa do craque palmeirense. Nos anos 80, o atacante Jorginho Putinatti era pé-frio. Nos anos 90, Edmundo era mercenário. Nos anos 2000, o meia Alex era sonolento. Chegou a vez de Dudu!

Com 46 gols em pouco mais de três anos o atacante e capitão palestrino é o atual vice-artilheiro do Palmeiras no século XXI, atrás apenas de Vagner Love, com 54 gols. Dois títulos de campeão nacional. Três vices-campeonatos. O jogador com maior número de assistências do elenco. Dois gols na final da Copa do Brasil em 2015. Artilheiro do time na temporada em 2015, com 16 gols. Vice-artilheiro da equipe no Brasileirão de 2016, com 6 gols, atrás apenas de Gabriel Jesus. Artilheiro do time no Brasileirão de 2017, com 9 gols marcados. Vice-artilheiro da equipe na temporada 2017, com 16 gols marcados. Maior artilheiro da história do estádio Palestra Itália, após a sua reforma em 2014, com 23 gols marcados.

Esse é o jogador que “não serve” para alguns setores da nossa torcida? Esse é o “ídolo de barro” para aqueles que adoram procurar um bode expiatório? Esse é o jogador que “afunda” o Verdão? Esse é o jogador que “desrrespeita” o torcedor ao não comemorar um gol que nos garante uma vitória? A quem interessa criar uma rota de colisão contra um dos principais jogadores do atual elenco?

Ironia a parte, uma miopia sem tamanho que se repete como um padrão de tempos em tempos, mas que cabe a todos nós escolhermos continuar presos a esse ciclo destrutivo, ou evoluir para um caminho mais iluminado.

Breve comparativo com jogadores chaves dos rivais e com período proporcional ao de Dudu no Palmeiras:

Corinthians

Rodriguinho chegou em 2013 no time do Parque São Jorge e só se firmou no elenco alvinegro em 2015. De lá para cá, disputou 160 jogos e marcou 33 gols nesse período.

Fez seu primeiro gol em um clássico em 2017, diante do São Paulo. Contra os três principais  rivais paulistas fez quatro gols no total. (Dois contra o São Paulo, dois contra o Palmeiras e nenhum contra o Santos).

É tratado como “Reidriguinho”.

Santos

Gabriel foi alçado a equipe profissional do Santos em 2013. Disputou 157 jogos e marcou 57 gols.

Fez seu primeiro gol em um clássico em 2014, diante do Corinthians. Contra os três principais  rivais paulistas fez 12 gols no total. (Seis contra o Palmeiras, três contra o Corinthians e três contra o São Paulo).

É tratado como “Gabigol”.

Palmeiras

Dudu chegou em 2015 no Palmeiras. Fez 184 jogos e marcou 46 gols.

Fez seu primeiro gol em um clássico em 2015, diante do Corinthians. Contra os três principais  rivais paulistas fez 7 gols no total. (Três contra o Santos, dois contra o Corinthians e dois contra o São Paulo).

Como iremos tratá-lo?

dudu

FORZA VERDÃO!!!

 

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História que se repete

Reproduzimos aqui um artigo escrito pelo jornalista Vincenzo Ragognetti na Revista Vida Esportiva Paulista, número 30, em agosto de 1942.

O conteúdo é atual e recorrente na história palmeirense. Qualquer semelhança é mera coincidência:

O Palestra vence, mas não convence… Sempre o velho estribilho

Desde a sua fundação, o Palestra não tem sorte com os comentários que os fãs de todos os times e os cronistas de todas as penas fazem sobre os resultados dos seus embates. O palestrino está acostumado com isso, e não liga, e acolhe tudo com o seu bom sorriso de superioridade, com aquela atitude que constitui o gesto de “faire de niches” dos que tem certeza do seu valor intrínseco e real.

A frase já se tornou a mofa tradicional do palestrino de todas as camadas. A cada fim de jogo, em que o quadro aplicou, com saúde e com galhardia, toda a potencialidade da sua habilidade, o torcedor do clube alviverde, contente com a vitória espetacular e bonita, pensa com ar de chacota e com a intenção de troçar:

“Amanhã, todos os jornais dirão que o Palestra venceu mas não convenceu!”

Dito e acertado: no dia seguinte, em letras garrafais, ou em letras sem garrafas, a maior parte dos cronistas tenta convencer os seus leitores de que o Palestra “venceu, mas… não convenceu”. Não convenceu, naturalmente, eles, torcedores sistemáticos do  “contra ao Palestra”, eles adversários intransigentes do alviverde, a todo o custo.

Não se compreende por que  isto acontece somente com o Palestra. Não se compreende ainda mais, entre cronistas imparciais, sem cor de nenhum clube, que olham as refregas com completa isenção de ânimo, e sem se deixar levar pela torcida, cega e vesga.

Um exemplo de palpitante atualidade: há dias, feriram-se dois encontros, que, nas vésperas, eram taxados de “jogos-chaves”, “jogos-perigosos”, em que o Palestra deveria atacar no seu “fortim”, o Juventus, o “papão de todos os campeões”, no seu campo na rua Javari; e em que o São Paulo F.C. deveria enfrentar na Vila Belmiro, no seu campo, na sua cidade, e com a sua torcida, o Santos F.C..

Pois bem, sabe-se o resultado dos dois embates: duas perfeitas “barbadas”, para os dois quadros colocados nos primeiros lugares. Leiam, por favor, as crônicas, do dia seguinte: o que o São Paulo fez foi um assombro, um espetáculo empolgante de futebol mestre, uma exibição memorável de clássico jogo de grande e alta categoria, enfim, um hino aos tricolores, que souberam tão galhardamente conquistar a vitória difícil.

O que fez o  Palestra, ao contrário, foi uma coisa fácil, pois o encontro foi bem pouco interessante, sem um só episódio digno de nota, uma refrega tão pouco disputada que nem valeu a pena de ir assistir, e um jornal, com o peso da sua responsabilidade, chegou ao cúmulo de afirmar, em letras de forma, que o jogo entre o Palestra e o Juventus chegou a dar… sono! A repetição da velha ladainha:  O Palestra venceu, mas não convenceu.

Ora, isso não se explica, porque não é justo. Tudo o que tem sabor de injustiça deve ser apontado, para se evitar a sua repetição. O Palestra é um clube de tamanha responsabilidade nos esportes brasileiros, de tamanha fama, em todos os centros, onde se cultiva o futebol no resto do país, que não precisa mendigar elogios a quem quer que seja. Cumpre a sua missão com altivez, com dignidade, e, direi também, com religiosidade. Mas é necessário não insistir no achincalhe sistemático a tudo que ele faz, a todas as vitórias que ele conquista, com igual esforço do que os outros, a todos os êxitos que ele obtém com sacrifício dos seus dirigentes, com abnegação dos seus sócios, com devoção, por todos aqueles que seguem a bandeira verde e branca.

Pois, que se “vencesse e não convecesse” o Palestra não seria, no panorama nacional, a sociedade típica que é, o “clube mais popular do Brasil”, e não teria privilégio glorioso de ser o único clube em todo o país que jogou, venceu e convenceu, em todos os campos dentro e fora do Estádio!”

periquito

FORZA VERDÃO!!!

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Palestra, um sonho de menino

*** Por Vincenzo Ragognetti (Gazeta Esportiva 1958)

Poder-se-ia escrever um livro sobre o trabalho feito por Luigi Cervo em prol do futebol paulista e, particularmente, para a fundação e afirmação do Palestra Italia.

1914. Chegaram e brilharam os italianos de Turim, jogando um futebol vistoso, entusiasmando os paulistas, metendo orgulho aos muitos italianos aqui demandados, em busca de fortuna e de nova pátria para os seus filhos.

Italiano ele também, Luigi Cervo, também se encheu de brio, ele um humilde, mas generoso filho da mais do que generosa Calábria na Itália, e ali mesmo, no escritório das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, localizado à rua Direita, já então o escritório mais importante do maior parque industrial do Brasil, chamou alguns dos seus mais vivos amigos e meteu-lhes na cabeça de fundar uma sociedade esportiva tipicamente italiana, que como os ingleses e alemães, pudesse ter o seu time de futebol, disputando jogos oficiais.

A turminha do Matarazzo aderiu e lá foi Luigi Cervo a procura de outros elementos fora da casa onde trabalhava para cumprir a sua missão que Deus lhe dera: fundar o Palestra Italia.

Tinha, então, Luigi Cervo um pouco mais de vinte anos: a idade em que o italiano aqui vindo de sua terra olha ao seu redor e tenta acertar no negócio que um dia o fará um magnata, um comendador, um colecionador de milhões.

Com a sua inteligência, sútil e lúcida, com sua incrível capacidade de trabalho, com a sua resistência, com a sua persistência, Luigi Cervo, talvez dedicando-se à uma industria, um comércio, um banco, teria morrido milionário, legando aos seu filhos não uma herança espiritual, mas uma verdadeira fortuna.

Mas Luigi Cervo não nascera com a alma assim. Mas com a alma de um sonhador. Um romântico que sempre fora na São Paulo do lampião a gás e das serenatas nas esquinas dos bairros excêntricos, preferindo ouvir o som de uma boa canção napolitana do que o estridente e agudo som das moedas do “vil metal”.

Ele, então, deu corpo, alma, trabalho, sacríficio, tudo, mas tudo mesmo, o que a vida lhe poderia conceder para fundar o Palestra Itália!

Posto o Palestra Italia entre os grandes clubes, Luigi Cervo retirou-se. Ficou a olhar de longe a obra feita com carinho, muitos sacrifícios, muitas renúncias e muito trabalho.

Nos momentos críticos, de crise interna, Luigi Cervo era convocado para dizer algo, dar um conselho, traçar uma orientação, espelhar uma situação. Ia sempre com o seu bom sorrisso, soldado palestrino de primeira linha, sempre pronto, mas sempre na sombra e discreto.

Miudo e ágil, irriquieto sempre como um passarinho, morreu pobre, como todos os sonhadores, como todos os idealistas.

Nunca pediu nem banquetes, nem homenagens, nem honrárias, pois quis sempre servir o Palestra Italia com humildade e constância.

Para que a geração futura de palestrinos nunca mais se esqueça de quem lhe deu o clube que tanto amamos, não seria o caso, agora, o Palmeiras de erigir um busto em bronze na sua suntuosa sede social?

Espero que o Palmeiras, que herdou a tradição e a pujança do Palestra Italia, cumprirá o seu dever com Luigi Cervo, seu fundador, a quem deu a vida, pois mais não podia abnegadamente dar.

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