Esportes, Italianidade

Torino e Pro-Vercelli no Brasil

Recentemente, o jornalista italiano Marco Sappino, publicou na Itália o livro: “La grande guerra ai Tropici. L’avventura sudamericana del Torino e della Pro Vercelli”.

A obra retrata em língua italiana a passagem do Torino e da Pro-Vercelli, duas tradicionais equipes de futebol na Itália, em solo brasileiro e que, entre outros feitos, serviram de fonte de inspiração para a fundação da Società Sportiva Palestra Italia, atual Palmeiras, em agosto de 1914.

Em entrevista ao blog, Sappino conta um pouco de sua história e de sua obra. Confira:  

Como surgiu a ideia de resgatar essa bela história do futebol italiano?

RESP: Surgiu por volta do ano  2000, quando editei um dicionário enciclopédico histórico sobre um século de futebol italiano. Enquanto pesquisava por meio de revistas esportivas, empoeiradas nas bibliotecas, encontrei uma foto acompanhada de uma breve legenda: era a equipe do Torino F.C. alguns minutos antes de zarpar do porto de Gênova, na Itália, para Santos em 1914. Essa imagem despertou minha curiosidade, minha fantasia e minha determinação em pesquisar mais sobre o assunto, durante anos, de uma esquecida excursão feita por um grupo de pioneiros do futebol. Eu percorri arquivos, livros, coleções e tive sorte o suficiente para ver os relatos direto de seu principal protagonista dessa aventura: Vittorio Pozzo. Treinador e uma lenda do futebol italiano que por 20 anos liderou a seleção nacional e ganhou a Copa do Mundo em 1934 e 1938,  além da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936. Seus registros, suas recordações, uma riqueza de memórias quase exterminados, são mantidos no Arquivo do Estado da cidade de Turim.

O que mais lhe chamou atenção em suas pesquisas?

RESP: Eu me deparei especialmente com alguns elementos da história e do contexto em que tudo ocorreu muito interessantes: o epílogo da Belle Époque, o traço da Europa na Primeira Grande Guerra, a recepção dos imigrantes italianos aos jogadores, bem como as instituições italianas presentes no Brasil, que abraçaram os atletas como uma espécie de agradecimento que atenuava o sofrimento e humilhação que havia marcado a suas saidas da pátria-mãe Itália, anos antes. Mas acima de tudo o que eu gostei foi poder mergulhar na atmosfera de um esporte ainda amador, não sujeito a regras, longe de ser algo tão mercadológico e cercado de impurezas, como vemos nos dias atuais. Pude constatar também que nesses primórdios, não havia só aspectos positivos. Uma das concepções do futebol era de que o esporte seria o terreno ideal para preparar soldados mais fortes e agressivos, dando uma contribuição para a cultura bélica que causou, um século atrás, o terrível massacre da primeira guerra mundial. No entanto, o espírito de solidariedade, que é visto na excursão vivida por Torino e Pro Vercelli, nos ensina algo, como idealismo, cavalheirismo, no campo e nas arquibancadas.

Qual a importância dessa excursão de 1914 para o crescimento e evolução do futebol italiano?

RESP: Nesta pesquisa, fiquei convencido de que foi uma oportunidade perdida para o futebol italiano. Foi uma façanha digna de nota atravessar o Atlântico para ir competir. Deve-se reconhecer esse mérito da Pro Vercelli e do Torino, pois até então, somente atletas da grã-bretanha, tinham ido tão longe para atuar no Brasil, Argentina e Uruguai, por exemplo. As duas equipes italianas (ambos integrados com jogadores emprestados da Juventus, Milan ou Inter) romperam barreiras, e ampliou o horizonte do futebol italiana, para concorrer com outras escolas e com outras áreas culturais. Mas acho que  tudo não passou de uma relação sentimental com comunidades de imigrantes, para um país que viu milhões de pessoas migrarem para a América, obrigadas a fazê-lo pela pobreza, ignorância e o sonho de uma vida diferente. A eclosão da primeira grande guerra em meio a excursão, teve o efeito de um ciclone. Os jogadores retornaram à Italia e alguns deles foram servir o exército nas trincheiras. Inevitavelmente, o esporte foi uma das “vítimas” daquela grande tragédia. Por tudo isso, a aventura sul-americana de Pozzo e seus companheiros não poderia transmitir sinais tangíveis, uma herança, em meio a essas ruínas.

O intercâmbio do futebol italiano com excursões à América do Sul era constante até os anos 70. Isso diminui consideravelmente. Apenas em 2014 a Fiorentina veio ao Brasil, após 20 anos da última visita de um clube da Itália. Como você analisa esse hiato?

RESP: Expresso apenas a opinião de um fã de histórias de esportes, não sou nem jornalista nem especialista do ponto de vista técnico. Hoje, a extravagância do futebol mundial multiplica seus clientes em “salões de beleza”, mas perdeu essa sensação de descoberta, de aventura, do conhecimento do que em outras temporadas ele proporcionava. Hoje o futebol não tem mais esse intercâmbio entre os povos e costumes, tudo virou um grande negócio. De qualquer modo, espero que não passemos mais 20 anos para um aperto de mãos entre os dois lados do oceano, que tem muito em comum.

O futebol italiano atualmente passa por uma crise nos clubes e nas seleções. Como você analise esse momento?

RESP: Acho que hoje é quase impossível competir com os potenciais financeiros dos magnatas que hoje dominam os campeonatos e ligas de outros países. A causa principal está na profunda crise do sistema econômico italiano que faz com que  tenha um grande impacto noo nosso ambiente organizacional desportivo. Nossos clubes têm proprietários e estruturas obsoleta. Além das brigas de torcidas que afastam famílias e crianças de um ambiente saudável nos estádios. Entretanto, o fenômeno mais alarmante é a ascensão do racismo nas arquibancadas. Além disso, a diferença financeira entre as equipes locais estão cada vez maiores, mesmo internamente. Hoje é impossível um clube de médio porte sonhar em vencer a Série A, como aconteceu há trinta anos atrás, quando o Verona, uma equipe modesta, levantou o campenato nacional.

Quem é Marco Sappino?

RESP: Um senhor de sessenta anos que começa a colocar ordem em suas memórias e a cultivar projetos. Eu me considero com sorte de ter feito na vida o ofício que sonhei quando era criança, como certa vez um sábio colega me disse: “é sempre melhor ser uma jornalista do que trabalhar…” . Mantenho sempre acesa minha curiosidade e espero que as pessoas desfrutem esse livro, como eu desfrutei as pesquisas. Sou um amante da Política, da Arte e do Esporte e continuo a me sentir um homem com ideiais e sonhos. Esses são os três ímãs que me atraem sempre e me mantém em contato com o mundo ao meu redor.

Como o leitor que mora no Brasil pode adquirir essa obra?

http://www.amazon.it/grande-Tropici-Lavventura-sudamericana-Vercelli/dp/8868302632

Título: La grande guerra ai Tropici. L’avventura sudamericana del Torino e della Pro Vercelli
Autor: Marco Sappino
Editora: Imprimatur

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