Esportes

História que se repete

Reproduzimos aqui um artigo escrito pelo jornalista Vincenzo Ragognetti na Revista Vida Esportiva Paulista, número 30, em agosto de 1942.

O conteúdo é atual e recorrente na história palmeirense. Qualquer semelhança é mera coincidência:

O Palestra vence, mas não convence… Sempre o velho estribilho

Desde a sua fundação, o Palestra não tem sorte com os comentários que os fãs de todos os times e os cronistas de todas as penas fazem sobre os resultados dos seus embates. O palestrino está acostumado com isso, e não liga, e acolhe tudo com o seu bom sorriso de superioridade, com aquela atitude que constitui o gesto de “faire de niches” dos que tem certeza do seu valor intrínseco e real.

A frase já se tornou a mofa tradicional do palestrino de todas as camadas. A cada fim de jogo, em que o quadro aplicou, com saúde e com galhardia, toda a potencialidade da sua habilidade, o torcedor do clube alviverde, contente com a vitória espetacular e bonita, pensa com ar de chacota e com a intenção de troçar:

“Amanhã, todos os jornais dirão que o Palestra venceu mas não convenceu!”

Dito e acertado: no dia seguinte, em letras garrafais, ou em letras sem garrafas, a maior parte dos cronistas tenta convencer os seus leitores de que o Palestra “venceu, mas… não convenceu”. Não convenceu, naturalmente, eles, torcedores sistemáticos do  “contra ao Palestra”, eles adversários intransigentes do alviverde, a todo o custo.

Não se compreende por que  isto acontece somente com o Palestra. Não se compreende ainda mais, entre cronistas imparciais, sem cor de nenhum clube, que olham as refregas com completa isenção de ânimo, e sem se deixar levar pela torcida, cega e vesga.

Um exemplo de palpitante atualidade: há dias, feriram-se dois encontros, que, nas vésperas, eram taxados de “jogos-chaves”, “jogos-perigosos”, em que o Palestra deveria atacar no seu “fortim”, o Juventus, o “papão de todos os campeões”, no seu campo na rua Javari; e em que o São Paulo F.C. deveria enfrentar na Vila Belmiro, no seu campo, na sua cidade, e com a sua torcida, o Santos F.C..

Pois bem, sabe-se o resultado dos dois embates: duas perfeitas “barbadas”, para os dois quadros colocados nos primeiros lugares. Leiam, por favor, as crônicas, do dia seguinte: o que o São Paulo fez foi um assombro, um espetáculo empolgante de futebol mestre, uma exibição memorável de clássico jogo de grande e alta categoria, enfim, um hino aos tricolores, que souberam tão galhardamente conquistar a vitória difícil.

O que fez o  Palestra, ao contrário, foi uma coisa fácil, pois o encontro foi bem pouco interessante, sem um só episódio digno de nota, uma refrega tão pouco disputada que nem valeu a pena de ir assistir, e um jornal, com o peso da sua responsabilidade, chegou ao cúmulo de afirmar, em letras de forma, que o jogo entre o Palestra e o Juventus chegou a dar… sono! A repetição da velha ladainha:  O Palestra venceu, mas não convenceu.

Ora, isso não se explica, porque não é justo. Tudo o que tem sabor de injustiça deve ser apontado, para se evitar a sua repetição. O Palestra é um clube de tamanha responsabilidade nos esportes brasileiros, de tamanha fama, em todos os centros, onde se cultiva o futebol no resto do país, que não precisa mendigar elogios a quem quer que seja. Cumpre a sua missão com altivez, com dignidade, e, direi também, com religiosidade. Mas é necessário não insistir no achincalhe sistemático a tudo que ele faz, a todas as vitórias que ele conquista, com igual esforço do que os outros, a todos os êxitos que ele obtém com sacrifício dos seus dirigentes, com abnegação dos seus sócios, com devoção, por todos aqueles que seguem a bandeira verde e branca.

Pois, que se “vencesse e não convecesse” o Palestra não seria, no panorama nacional, a sociedade típica que é, o “clube mais popular do Brasil”, e não teria privilégio glorioso de ser o único clube em todo o país que jogou, venceu e convenceu, em todos os campos dentro e fora do Estádio!”

periquito

FORZA VERDÃO!!!

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Jesus sempre Salva!

O garoto de ouro do Palmeiras, Gabriel Jesus, ao fim da partida de quinta-feira (31) a noite no Pacaembu contra o Rio Claro, pelo Campeonato Paulista, saiu do gramado do estádio municipal dizendo que a vitória do Verdão tinha tido um gosto amargo para a imprensa, que notadamente amplifica a pressão no clube de Palestra Itália, em relação aos demais rivais da capital.

Talvez, inconscientemente, o jogador tenha sintetizado a relação de mais de 100 anos entre o Verde e a mídia com uma clareza e espontaneidade jamais antes abordada por nenhum atleta palestrino.

O Verdão nasceu numa carta de jornal. Um dos seus fundadores e idealizadores foi brilhante escritor e jornalista, Vincenzo Ragognetti. E isso por si só já bastava para essa relação secular ter sido mais amistosa.

O que vemos é exatamente o contrário. O expediente “anti-palestrino” nasce com o clube. Jornais que representavam as oligarquias paulistana sempre tiveram um viés de desdenhar e diminuir os feitos esmeraldinos. Até mesmo de falsear fatos para desestabilizar o “time dos italianinhos”, como pejorativamente nos chamavam.

É historico. Sobre o assunto poderia discorrer páginas. Mas recomendo o brilhante trabalho ‘Imigração e Futebol – O caso Palestra Itália’ de José Renato de Campos Araújo, que aborda a questão com precisão e nitidez cirurgicas. Vale a pena ler essa obra.

Gabriel Jesus falou uma verdade. Dura aos colegas da imprensa. Mas uma verdade. A reação de alguns jornalistas em relação as suas palavras foi no minímo antagônica. Afinal, o ganha pão do jornalismo é a crítica. E com isso ela deveria saber lidar quando é criticada e não agir de modo reacionário e virulento. Mas buscar entender os reais motivos da critica que lhe fazem.

Gabriel Jesus – como todo jogador de futebol – convive com a crítica 24 horas por dia. Desde o cafezinho pela manhã na Padaria quando faz um golaço ou quando perde um gol feito, até as tribunas dos inexoráveis especialistas. Todo dia ele é obrigado a ouvir apupos e louvações e é treinado para viver nessa atmosfera.

Quando ele emite uma opinião sincera e que não goza da simpatia dos colegas, logo vem o ataque como forma de resposta. “Baixa a Bola Moleque”. Se essa frase fosse proferida por um jornalista – alvo da crítica – vá lá. É até compreensível. Mas partiu de um ex-jogador (colega de profissão de Jesus), que nem mesmo tem habilitação acadêmica para exercer tal cargo. Uma falha da desunida categoria, que dá margem a qualquer um usar dos meios de comunicação sem ao menos conhecer essa maravilhosa ciência.

“Um jogadorzinho desse aí, que tem só dois gols no Paulista, Pottker tem mais gols do que você. Nem titular do Palmeiras você é”.

Essa frase explica muito a realidade de certos setores do nosso jornalismo esportivo, que se subverte a grandiloquencia ao invés do talento e da reflexão mais aguçada. Ela põe fim a qualquer discussão, de tão brejeira e pueril.

Se Gabriel Jesus fosse do time do Dr. Sócrates, seria aclamado como um novo profeta “do povo”, por suas sábias e redentoras palavras contra o veículo alienante. Mas ele não é. Ele veste verde. A camisa dos “carcamanos”. E isso ofusca os espíritos vencidos pela sua mística, que se revestem de uma inveja mascarada de ódio contra os seus símbolos e heróis.

Jesus, com seu verbo divino e com a bola nos pés, sempre Salva!

VIVA O MENINO JESUS!jesus

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