Esportes

Nada aprendemos

Desde 1995, mais precisamente desde a batalha do Pacaembu, a questão da violência nos estádios de futebol é tratada pelas autoridades constituídas e pesquisadores com maior destaque. Diversas versões e pontos de vistas ainda são debatidos para compreender melhor as motivações dos fatos e encontrar um caminho.

Mais de 20 anos se passaram sobre esse episódio e a resposta encontrada pela Segurança Pública para coibir esse fenômeno é simplista: o fim das torcidas organizadas. Foi assim com Capez, prossegue com Castilho, como demonstrado em entrevista concedida no programa Bate-Bola, da Espn Brasil, dessa terça (31).

O atual promotor evoca um apelo da “sociedade” para acabar com as organizadas. Prega a torcida única nos estádios como um modelo ideal. Diz que custo e logística para cuidar de  torcidas são inviáveis para o Estado. Afirma que dirigentes são reféns das torcidas. Entre outros argumentos.

Talvez o promotor não tenha lido os jornais recentemente. Ou se esqueceu do fato de dois presidentes de clubes importantes da capital paulista (São Paulo e Corinthians) afirmarem categoricamente manter relações estreitas com torcidas organizadas. Leco e Andrade não pareceram nada reféns em suas afirmações quando trataram do assunto. Pelo contrário. Talvez pelo fato de que as organizadas sempre foram alimentadas e financiadas por cartolas. Há um erro histórico na fala do promotor, portanto.

Quando ele afirma que a “sociedade” quer o fim das organizadas, lembro que essa mesma “sociedade” quer o fim da corrupção no país, por exemplo, e nem por isso prega o fim do Congresso, que se demonstrou um antro de promiscuidade sem fim.

Puna-se indivíduos e não instituições quando se há um delito. Acho que isso é uma premissa básica. Não precisa ser um grande jurista para ter essa percepção – vide o didatismo contido na Operação Lava Jato.

Com as torcidas organizadas, o processo encontrado pelas autoridades tem sido o inverso. Acredito que por essas serem instituições de caráter popular.

As afirmações de Castilho demonstram que o Estado não está preparado para lidar com os eventos de massa, em especial o futebol. Resume essas manifestações a custos de cavalaria, bombas de gás e destacamento de contingente policial. Como se esses gastos já não estivessem contemplados nos borderôs dos grandes jogos que movimentam milhões e que revertem percentual para os gastos com segurança.

Está mais do que constatado em diversas pesquisas que as brigas, as confusões e os ilícitos estão hoje fora dos estádios, o que não justifica em hipótese alguma a tese apresentada de torcida única dentro deles.

Castilho diz que torcida única aumenta o público presente nos estádios.  Na experiência realizada no clássico entre São Paulo e Palmeiras no Morumbi, no último final de semana, nada aponta para essa perspectiva. Afinal, pouco mais de 20 mil pessoas estiveram presentes, num local com no minímo o triplo da capacidade atingida.

Não compreender que torcida é uma identidade cultural de um determinado segmento e simplificá-la como um bando de vagabundos e marginais, como crê o promotor, é dar continuidade a mais 20 anos de atraso.

Dissociar as torcidas de uma realidade social é miopia aguda. Vivemos numa sociedade intolerante sob todos os aspectos. Somos um dos países que mais mata, estupra e fere direitos civis por minuto. E isso se reflete também nas microorganizações.

Borrachada e canetada não constroem uma atmosfera melhor. Pode ser um paliativo repressor, mas não ataca a causa e extingue o problema. Drogas, lavagem de dinheiro, má educação, entre outras mazelas, arruínam toda a nossa nação e não apenas o meio do futebol e seus agentes.

Mas pode haver uma motivação que ainda está oculta por trás de tudo isso e a que ainda não nos atentamos. Talvez tudo isso não passe apenas de pirotecnia, mais uma vez, para interesses pessoais. Ou então para que se acelere ainda mais o processo de elitização em curso no nosso futebol, com o objetivo de eliminar o “elemento estranho” ao novo universo do esporte-bretão, com ações higienistas disfarçadas de discursos populistas.

torcida-palmeiras

FORZA VERDÃO!!!

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