Esportes

Uma tarde em 1933

Poderia ser mais um sábado qualquer, onde familiares se reúnem num churrasco para celebrar uma data festiva. Mas ali havia uma magia. Um certo espírito fraternal. Laços inquebráveis que unem almas e corações.

As diferenças que sempre existem, se tornavam pequenas ao brindar dos copos. A música era alegre. Até o dia cinza ganhava um colorido diferente. O ar era leve.

Assim a tarde fluiu. Gerações trocando suas experiências e emoções. Em dado momento, o nonno e sua esposa são apresentados ao novato da casa, o namorado de uma de suas tantas netas.

– Ele é descendente de italiano e palmeirense.

Um sorriso fácil de satisfação brotou do rosto do patriarca, que logo falou:

– Meu pai veio de Milão para cá. São todos buonna gente! E sendo palmeirense, então, melhor ainda. Seja bem vindo.

O namorado retribiu com um gesto de carinho e tentou arriscar umas palavras em língua italiana. O nonno, na sua sabedoria, respondeu dizendo que entendia tudo, mas que não se lembrava mais da bela língua de Dante.

O papo seguiu. A lucidez sobre fatos e momentos vividos ao longo de sua existência era plena. A vida em Jundiaí, a mudança para o ABC, o trabalho na fábrica em Utinga, a criação dos filhos, o gosto por mexer na terra, e acima de tudo de seus ídolos palmeirenses.

– Lima, o garoto de ouro, não enxergava bem de uma vista, mas com a bola nos pés era um craque.

– Oberdan Cattani agarrava a bola com uma mão!

– Og Moreira, Echevarrieta, Villadoniga eram um espetáculo.

– Uma vez papamos cinco títulos seguidos. Ficamos conhecidos como o campeão das Cinco Coroas.

– Dudu e Ademir da Guia eram fantásticos.

Na sua ingenuidade, o novato questiona qual o seu maior ídolo. A resposta foi direta: Todos eram bons. Gosto do Palmeiras e quem veste essa camisa.

Um de seus jogos marcantes não foi nenhuma decisão ou uma grande goleada. Pelo contrário. Foi uma visita do Palmeiras para um simples amistoso contra o Corinthinha de Santo André. No lotado e modesto campo do Galo Preto da Vila Alzira no ABC, o Verdão apresentava o seu esquadrão comandado por Waldemar Fiume e outros craques. O time local jogava uma decisão de Copa do Mundo. Eram uns leões em campo. Abriram o placar e mantinham a vantagem de 1 a 0 com uma raça feroz. Fora de campo, as provocações dos torcedores adversários eram direcionadas a Fiume, o capitão alviverde.

– Cadê o Fiume? Hoje o Fiume ficou em casa? Quem disse que ele é craque? Essa aí não é de nada! Fiume é perna de pau.

O jogo se arrastava, quando o calado Fiume resolveu dar a resposta aos falastrões, assim descrito pelo nonno, fazendo um gesto com as mãos em zigue-zague.

– De repente ele pegou a bola lá de trás e veio vindo assim, fazendo fileira, e fez a jogada do gol de empate. Pouco depois, do mesmo jeito, ele foi lá e virou o jogo. O pessoal ficou mudo. O Fiume parecia que não estava nem aí. Eu me divertia. Lembro disso até hoje. Que jogador era o Waldemar Fiume!

Sobre a escolha de sua paixão, ele conta com orgulho e naturalidade. Todos os garotos em sua rua eram corintianos. Ele não ligava para futebol. Mas um dia houve um clássico entre Palestra Itália e Corinthians. E toda a criançada dizia que ele tinha que escolher um time e de preferência, o alvinegro. Com a pureza infantil, ele propôs aos colegas.

– O time que vencer será o meu time. Todos toparam.

No fim da tarde do dia 5 de novembro de 1933, ao pé do rádio ele e os amigos ouviam o anúncio do oitavo gol palestrino diante do seu maior rival Corinthians, num Derby improvável. Era mais uma vitória alviverde rumo ao título paulista daquele ano. Era a maior vitória da vida dessa rivalidade. Era a vitória sincera de um garoto que ainda se encanta por mais de 90 anos pelo seu Verdão.

Esse sentimento ultrapassa barreiras e é refletido até hoje em sua família, que mantém viva essa chama e tradição, que ele soube plantar e cultivar em cada um de seus membros.
Mas ela fica ainda mais latente, enquanto o sonho insiste em existir no imaginário esmeraldino do nonno.

– Fui no novo estádio do Palmeiras. Que beleza. Se trazer um bom camisa 10, eu acredito que o título do Campeonato Brasileiro será nosso!

A saborosa tarde de 1933 ainda vive. Aquela criança palestrina sempre será eterna!

nonno e eu

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