Esportes

Mulher em Primeiro Lugar

A Sociedade Esportiva Palmeiras foi o primeiro clube do futebol brasileiro a oferecer gratuidade em jogos como mandante para as mulheres em 1982.

Um pioneirismo contestado pelas feministas à época.

Hoje, vemos uma presença cada vez mais marcante da mulher em todos os setores do mundo e principalmente no futebol.

Cabe dizer que quem deu o pontapé inicial para que isso fosse possível foi o Verdão há mais de 30 anos atrás, mantendo a sua tradição de clube de vanguarda, plural, sem preconceitos e pioneiro.

Os jornais assim registraram esse momento histórico, o qual reproduzimos na íntegra:

Gazeta Esportiva de 12 de agosto de 1982
(matéria assinada pelo jornalista Wanderley Nogueira)
Título: A Força da Mulher

“A partir de hoje mulher pode entrar sem pagar nada nos jogos mandados pelo Palmeiras. Não é uma iniciativa genial, hipercriativa, mas não deixa de ser oportuna. O futebol passa por um momento em que todas as ideias devem ser estudadas, analisadas e se possivel colocadas em pratica.

É dessa maneira que o futebol pode ficar mais forte, mais procurado, mais interessante.

A presença da mulher faz bem aos olhos, ao espirito, ao ambiente. Já surgiram algumas manifestações de lideres feministas, contestando aquilo que elas chamam de “favor especial”. Repelem, discordam, simplesmente não aceitam o “desaforo”…

O que elas não entenderam é que o Palmeiras não está fazendo apenas um apelo promocional, inteiramente válido. A diretoria agiu movida pelo desejo de aumentar o número dee torcedores do Palmeiras. Imaginou que o marido levará a mulher, mais facilmente, se ela não pagar nada… O mesmo, imaginou a direção do Palmeiras, com relação aos namorados, aos noivos, aos amigos. Não houve nenhum intuito discriminatório na atitude do Palmeiras. Hoje, o Pacaembu poderá ficar muito mais bonito.

O circulo do futebol vai sendo invadido – felizmente – pelas mulheres. Há times femininos lutando pela legalização – algo defendido por todos.

E agora com a posição do Palmeiras, o número daquilo que os carentes de sensibilidade chamam de “sexo frágil”, aumentará bastante. Não pode ser frágil a mulher que sustenta a família, que trabalha para ajudá-la, que cuida dos filhos, que serve de termometro dentro de casa. É incorreto tachar de frágil alguém que enfrenta dificuldades com dignidade, que atua como companheira indispensavel, que sabe escolher suas cores, que dirige paises, empresas, escolas, que alimenta crianças e adultos. As “rebeldes” feministas deveriam encarar a atitude do Palmeiras, como um reconhecimento tardio da importancia de presença feminina nos estádios de futebol. O Palmeiras está tentando atrair novos clientes e consumidores.

As empresas comerciais comumente agem dessa maneira: dão brindes, descontos, apresentam gratuitamente seus produtos. Depois de algum tempo acreditam que poderão recuperar o lucro perdido, pois o consumidor ficará fascinado pelo produto e mesmo tendo que pagar não irá se afastar dele.

Resta apenas que o Palmeiras e seu time cuidem para não assustar os novos clientes. O espetaculo que será mostrado deverá ser agradavel e atraente.

O último campeonato mundial serviu para mostrar mais uma vez que o futebol não é uma paixão apenas dos homens. O País inteiro foi envolvido por um sentimento de emoção. Mulheres e meninas discutiam lances, chutes fracos ou fortes, faltas violentas ou providenciais. Xingaram árbitros e adversários.

Elas confeccionaram bandeiras, faixas, carregaram bandeiras. Claro que era o futebol do Brasil que estava em jogo em alguns poderiam classificar este engajamento como ocasional. Mas fundamentalmente não é verdade.

É um esporte como outro qualquer. Mulheres frequentam o Joquei, assistem aos jogos de basquete, futebol de salão, tênis, competições de natação, volei, etc.

O passo dado pelo Palmeiras poderá atuar como um empurrão que faltava para levar as mulheres aos estádios. Muitas irão pela primeira vez e é possivel que se tornem amantes do mais importante esporte deste país.

Será uma torcida diferente, graciosa, gentil. Há algum tempo atrás, a torcida do São Paulo resolveu oferecer rosas às torcedoras, mas sem nenhum apoio financeiro resolveu interromper a recepção…

Vamos ver pelas arquibancadas a meiguice das meninas, a beleza das moças e dezenas de olhares maternos e compreensivos. Os jogadores do Palmeiras aplaudiram a ideia, como Luis Pereira, por exemplo:

“Acho que são atitudes assim que atraem os torcedores. Será muito bom ver familias inteiras nos jogos de futebol. O marido, a mulher, a filha… e não adianta tentar esconder o sol com a peneira: muitas vezes o homem não as leve a um estádio porque a despesa fica muito alta.

Com a presença das mulheres acho que haverá uma especie de censura natural. Acredito mesmo que os palavrões vão diminuir”.

O carioca Rocha é um dos mais entusiasmados com a iniciativa:

“No Rio de Janeiro é comum as mulheres formarem torcidas femininas e agitarem as arquibancadas. São sensiveis, gritam, protestam, ficam felizes nas vitorias e muito tristes nas derrotas. As mulheres formam uma enorme força que o futebol não pode desprezar. E até uma obrigação encontrar-se uma maneira de atrai-las para os estadios”.

E há mulheres que marcam no futebol pelo seu amor: Filhinha, do São Paulo; Elisa, do Corinthians; Eva, do Palmeiras; Conceição, da Ponte Preta… Ninguém torce mais que elas!”

12/8/1982 Palmeiras 3×1 Xv de Jaú-SP – Campeonato Paulista
Estádio Pacaembu
Gols: Celio, Jorginho Putinatti (2) (PAL); Osni (XV)
Palmeiras: João Marcos (G), Benazzi, Luis Pereira, Polozzi, Vargas, Rocha, Jorginho Putinatti, Celio (Carlos), Barbosa, Reginaldo (Carlos Alberto Borges), Baroninho. Técnico: Moraci Santana (interino)
Xv de Jaú: Carlos Pracidelli (G), Paulo, Tobias, Luis Carlos, Cidinho, Edvaldo, Cesar, Nivio, Osni, Silvio, Betinho. Técnico: João Carlos Moya

Gazeta Esportiva do dia 2 de novembro de 1982
(matéria assinada pelo jornalista Wanderley Nogueira)
Título: Mulher nos Estádios: Ideia que deu certo

“Quando a diretoria do Palmeiras teve a ideia de permitir o ingresso das mulheres nos estadios, sem cobrar nada, algumas lideres feministas protestaram. Afinal, diziam elas, “nós não precisamos de nenhum favor… não queremos esse tipo de gentileza… temos condições de escolher onde ir…”

O vice-presidente do Palmeiras, Nelson Duque,  jamais elevando o tom da voz, explicou: “O nosso clube não quis ferir ninguém, muito menos colocar a mulher numa posição inferior. Sabemos perfeitamente a importância que ela tem na nossa sociedade. Hoje, a mulher está com presença marcante em todos os setores da nossa vida, é executiva, é policial, é médica, é dentista, é industrial, é comerciante…”

Temos hoje, dirigindo o Ministério da Educação e Cultura, uma mulher extraordinaria. Sabemos que a mulher não precisa de um ato generoso para ir ao estádio. Entretanto, a ideia baseou-se em inumeras pesquisas que mostraram uma grande carga de irritação entre milhares de mulheres pelo fato do marido, noivo ou filho, correr para os estádios, deixando-as em casa, sob as mais variadas alegações. Alguns diziam que as mulheres não entendiam nada de futebol, outros alegavam que estádio não é um lugar para mulheres e vários acenavam com dificuldades financeiras.

A Copa do Mundo provou o grande interesse que as mulheres tem pelo futebol. Ficaram atentas diante dos aparelhos de televisão, torcendo pela vitoria do nosso selecionado.

O futebol feminino está lutando com todas as forças para conquistar a sua legalização e já provou, nas inumeras apresentações nos mais diversos estádios, que é algo muito interessante e viavel.

A torcida do Brasil, na Espanha, tinha 40% de mulheres. Ora, o volei agrada às mulheres, o basquete também, idem a natação, e é claro que também o futebol.

Então, a diretoria do Palmeiras resolveu atrair a mulher aos estadios, vendo-as como novas consumidoras. Num futuro, é possivel que paguem seus ingressos normalmente, mas primeiro temos, e digo pelo Palmeiras, a intenção de mostrar espetáculos agradáveis e emocionantes. Será otimo quando a propria mulher, antecipar-se ao homem e convida-lo para o jogo do proximo domingo ou mesmo numa quarta-feira à noite.

É uma ideia de marketing, atendendo o caminho promocional que deverá envolver o futebol. Não há nenhuma discriminação. Queremos novos consumidores e nada melhor do que mostrar o futebol gratuitamente e provocar uma grande atração. A mulher vai ao jogo, critica, aplaude, gosta, ou não gosta e depois decide se deve ou não continuar indo aos estadios.

A ideia da diretoria doo Palmeiras deu certo. A presençca feminina nos jogos do clube – quando ele é o mandante – tem aumentado sensivelmente e no último domingo milhares  estiveram no Morumbi. Familias inteiras, sentadas no concreto das arquibancadas.

Marlene Dias de Almeida, 37 anos, dentista, três filhos e pertencente a uma familia tradicionalmente palmeirense confessou que foi ao estádio pela primeira vez: “Não sei na verdade explicar porque nunca quis comparecer a um jogo de futebol, mas nos ultimos dias ouvi dizer que mulher não pagaria nada, fiquei a vontade. Não é pelo dinheiro, mas imaginei que encontraria muitas mulheres e foi realmente o que aconteceu. Assistir jogo de futebol aqui da arquibancada, acho que é muito mais emocionante do que numa fria numerada…”

Alaide de Souza, corinthiana, empregada doméstica, 34 anos, três filhos, afirmou que agora tem uma distração: “Sou corintiana, mas vou começar a frequentar com o meu marido e duas filhas os jogos do Palmeiras. A gente gasta pouco e pode divertir-se juntos. Meu marido pagou 400 cruzeiros e eu e minhas filhas pudemos entrar. Fiquei perto de tantas outras moças e achei muito gostoso torcer. Pena que o Corinthians não autorizou a entrada das mulheres sem nenhum pagamento. A vida não está fácil e uma economia não faz mal para ninguém.”

As pessoas são diferentes. Para uma, o dinheiro não é importante, para a outra ele é primordial. As duas buscaram uma opção de lazer e gostaram. O objetivo do Palmeiras foi alcançado. São novas pessoas simpáticas ao futebol, falarão com as amigas, discutirão lances, absorverão as regras.

Circos anunciam normalmente: “Leve seu filho ao circo. Ele não paga nada.”. E óbvio que são raros os garotos que vão ao circo sozinhos. Também um importante parque infantil paulista está afirmando que “garotos até 10 anos não pagam nada e podem brincar em todos os brinquedos…”. Mas o pai paga a entrada e mãe também.

No último domingo, fatos interessantes ocorreram e podem ser mostrados como o surgimento de um novo hábito na cidade. Eis o relato de Aparecida Martins, uma jovem de 25 anos, casada, uma filha:

“Meu marido costumava vir sozinho ao estádio. Agora com esta promoção, pode-se passar um domingo sem gastar muito e todos juntos. Trouxe uma sacola com sanduíches, sucos e frutas. Fizemos uma especie de pic-nic aqui nas arquibancadas. Vimos o jogo dos meninos (juniores) dos velhos (veteranos) e o grande clássico. E além de tudo, tomamos muito sol… Acho que foi um domingo muito legal. Pensei que ouviria muitos palavrões e até que não foram tantos…”

31/10/1982 Palmeiras 0x0 Corinthians – Campeonato Paulista
Estádio Morumbi
Palmeiras: Gilmar (G), Benazzi, Luis Pereira, Deda, Nene, Rocha, Eneas (Barbosa), Aragones (Esquerdinha), Jorginho Putinatti, Baltazar, Baroninho. Técnico: Rubens Minelli
Corinthians: Solito (G), Alfinete, Mauro, Daniel Gonzalez, Wladimir, Paulinho, Sócrates, Zenon, Ataliba, Casagrande, Biro-Biro. Técni: Mario Travaglini
Preliminar: Palmeiras (Juniores) 1×1 Corinthians (Juniores)
Preliminar: Palmeiras (Veteranos) 0x0 Seleção Paulista de Veteranos

PS: O mando de jogo no Derby pertencia ao Palmeiras. Ele propôs que as mulheres pudessem entrar gratuitamente nos dois setores (mandante e visitante). A direção corintiana não aceitou. Somente as mulheres palmeirenses tiveram o acesso franqueado.

mulher

Manchete de capa da Gazeta Esportiva em 1982

Às nossas mulheres, toda a gratidão, carinho e respeito!

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2 comentários sobre “Mulher em Primeiro Lugar

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