Esportes

Chama que se apaga

A Sociedade Esportiva Palmeiras – por meio de uma nota oficial fria e lacônica – divulgou o fim das atividades do basquete adulto masculino na noite de segunda-feira, dia 29 de junho.

Com a tristeza e decepção que me consome por tal atitude, poderia usar esse espaço para extravassar toda a minha ira a respeito dos atuais gestores do clube alviverde, que também foram os responsáveis pela extinção do futsal adulto masculino do clube em junho de 2013. Mas isso não o farei. Prefiro relatar de outro modo essa data inglória na vida palestrina.

O Palmeiras atual se afasta das suas raízes. Os comandantes resumem o sentimento da instituição em números exatos e métodos contábeis. Tratam com desamor e desdém tudo aquilo que não compreendem. São ocos, opacos e dissimulados. Matam na essência a vocação esportiva do clube.

Eu vi, participei, chorei e vibrei “in loco” com o Palmeiras Campeão em mais de 20 modalidades esportivas, graças ao legado abençoado que os nossos antepassados palestrinos nos deixaram de forma idealista e abnegada ao longo desses mais de cem anos.

João Gaveta – o eterno torcedor símbolo do Palmeiras – nos deixou inúmeras lições. Na sua simplicidade e maluquice, ele projetava o seu amor ao Verdão muito além do futebol. Essa era uma particuliridade dos velhos palestrinos. Um orgulho que os outros rivais “Futebol Clube” invejavam.

Entretanto, essa chama se apaga a cada dia! Reflito: O que essa geração que nos comanda deixará para os futuros palestrinos se orgulharem?  O que fazem para manter a nossa tradição altiva? Como serão lembrados? Como aqueles que destruíram nosso orgulho e tradições?

Falar o que sinto nesse momento não adianta. É irreversível. Prefiro ficar com a poesia de Fernando Pessoa para entender o momento, que diz: “O Homem é do tamanho do seu sonho.”

À todos que um dia envergaram a camisa palestrina nas quadras brasileiras, minha sincera homenagem e profunda gratidão. Em especial às famílias: Paolillo, Albano, De Lorenzo, Hyppolito, Marrano, Caviglia, Del Favero, Malzoni, Gambini, Massa, Biagioni, Capodaglio, Butrico, Facchina, Ranieri, Langanke, Narcisi, Stefani, Carone, Cappucci, Barrichello, Setrini, Casanova e Faria. MUITO OBRIGADO!

Graças ao personalismo e abnegação dessas famílias, o basquete no Palmeiras existiu por mais de 90 anos impávido e fogoso.

Agora, tudo é apenas lembrança. Recordação. Memória. Saudades!

Ao invés de lamentar, exaltarei alguns feitos que nos fez ter orgulho do Palmeiras também com a bola nas mãos.

Nasce um sonho

O departamento de “bola ao cesto” da S.E. Palmeiras foi fundado em 1923, pelos associados Nicolino Spina e Estevam J. Stratta, os quais foram grandes pioneiros e mentores no desenvolvimento deste esporte, não apenas no seio do clube, mas em todo o país no início dos anos 20.

Stratta e Spina, junto com os irmãos Paolillo e Horacio “Baby” Barioni, todos jovens jogadores do Palestra, saiam pelo interior do Brasil ensinando as regras do esporte das cestas e “riscando” a giz as quadras para a prática da modalidade.

A quadra mais famosa a ser “riscada” foi a da cidade de Franca, em 14 de setembro de 1940. Daquele dia em diante, Franca passou a ser uma meca do basquete e é reconhecida como a capital da modalidade em território brasileiro.

Barioni, por sua  vez, ao fim de sua carreira de jogador idealizou os Jogos Abertos do Interior, competição que existe até hoje.

Palestra é Brasil

Em 1934 a equipe principal de basquete masculino do Palmeiras representa o Brasil no campeonato sul-americano de seleções de basquete disputado em Buenos Aires, na Argentina, onde obteve a honrosa terceira colocação.

Em 1935 o Verdão tornou a representar a seleção brasileira no sul-americano de seleções disputado no Rio de Janeiro.

Em 1959 o quinteto alviverde representa a seleção brasileira pela terceira vez no Torneio de Montevideo, no Uruguai.

NENHUM OUTRO CLUBE NO MUNDO CONSEGUIU SUPERAR TAL FEITO! TÃO POUCO QUALQUER OUTRA MODALIDADE!

Futebol e Basquete sempre unidos

Futebol e basquete no Palestra sempre caminharam juntos. Heitor Marcelino Domingues (maior artilheiro do Verdão em toda história) e o goleiro Nascimento jogavam no time do futebol e integravam a equipe de basquete ao mesmo tempo, no final dos anos 20.

Oscar Paolillo e Renato Paolillo, atletas da equipe de  basquete, atuaram pela equipe de futebol do segundo quadro do Palestra Itália em 1925.

Em 1945, o jogador Índio, que atuou como goleiro na equipe de futebol, também defendeu o basquete palmeirense no mesmo período.

Nos anos 70, o Palmeiras cedeu o zagueiro Baldochi para o rival Corinthians. Em troca, o então presidente alviverde, Paschoal Walter Byron Giuliano, pediu como compensação para o clube alvinegro a cessão do ala-pivo Zé Geraldo para reforçar as fileiras do basquete esmeraldino, no que foi atendido  pelo presidente alvinegro Vicente Matheus.

A expressão “É Com o Pé, É com a mão, o Palestra é Campeão!”, nasceu nos anos 30 como um grito de guerra da torcida palestrina que se orgulha da força de seu clube nos gramados e nas quadras.

Basquete Feminino

Em 1935 o Palestra Itália foi o primeiro clube da capital paulista a formar uma equipe de basquete feminino junto com o Espéria e ser o incentivador do primeiro campeonato paulista da categoria.

Centenário do Real Madrid

O livro oficial lançado no centenário do clube espanhol Real Madrid destaca a força do basquete palmeirense nos anos 70. O Verdão foi o primeiro clube das Américas a fazer 100 pontos nos madrilenhos em seus domínios, no Torneio de Navidad em 1975.

Essa foi a única citação esportiva sobre o Palmeiras em todo o livro do Real Madrid. Não há nenhuma menção sobre os confrontos entre os clubes no futebol.

Tipo exportação

O primeiro clube brasileiro a ter um atleta norte-americano no basquete foi o Palmeiras. Trata-se da dupla Curtis MacArthur e Earl Hill em 1973. O Verdão foi perseguido pelos rivais com diversas ações jurídicas, pois não concordavam com a presença dos atletas em quadra.

O Palmeiras venceu todos os preconceitos, intolerâncias e perseguições e conseguiu exercer o direito de trabalho desses atletas na justiça. Após isso, todos os clubes passaram a ter norte-americanos em suas equipes.

Em 1975 o Palmeiras é o primeiro clube do Brasil a terum técnico norte-americano: Bill Kuklas.

Mais de quarenta anos depois, o armador Leandrinho Barbosa, defendendo o Golden State Warriors em 2015, foi o primeiro campeão da NBA (Liga Norte-Americana) formado pela Sociedade Esportiva Palmeiras da história!

Vencendo o Apartheid

O Palmeiras realiza excursão para  África em 1959. Delegação palestrina é vitima de preconceito racial no auge do Apartheid. Atleta alviverde Valter de Souza, negro, é impedido de viajar com a equipe palmeirense por autoridades africanas que não liberam o seu visto.

Mesmo com esse constrangimento, os palmeirenses superam esses atos hostis e elevam o nome do Brasil em solo estrangeiro vencendo todos os jogos e torneios que disputou.

Patrocínio

A primeira modalidade esportiva do Palmeiras a ter um patrocínio na camisa foi o basquete, em 1982, em acordo com a empresa italiana FIAT.

Escudo

A primeira vez que o atual escudo do Palmeiras foi confeccionado em um uniforme foi justamente nos trajes da equipe de basquete palmeirense, em 1957.

O atual escudo só foi usado pela equipe de futebol dois anos depois, em 1959.

Globetroters

A famosa equipe de exibição norte-americana do Harlem Globetroters enfrentou o Palmeiras em duas ocasiões, em 1956 e 1957.

Em 1978 os americanos voltaram ao Brasil e fizeram um jogo-exibição no ginásio do Palestra Itália no intervalo do jogo entre Palmeiras e Monte Líbano, pelo Campeonato Paulista.

Campeões mundiais que defenderam o Palmeiras

– Wlamir Marques

– Edson Bispo

– Rosa Branca

– Jathyr

– Victor Mirshauswka

– Ubiratan

– Amaury Passos

– Mosquito

– Togo Renan Soares (Kanela) – Treinador

Medalhistas Palmeirenses (todas de bronze)

– 1960 Jogos Olímpicos de Roma: Rosa Branca, Edson Bispo dos Santos, Carlos Domingos Massoni e Jatyr Eduardo Schall

– 1964 Jogos Olímpicos de Tóquio: Jatyr Eduardo Schall, Edson Bispo dos Santos e Victor Mirshauswka

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periquito

VIVA ETERNAMENTE O GLORIOSO BASQUETE DA SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS!

É COM O PÉ, É COM A MÃO, O PALESTRA É O CAZZO DO CAMPEÃO!!!!

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10 comentários sobre “Chama que se apaga

  1. Zé Augusto de Aguiar disse:

    belíssimo texto, amigo, difícil terminar de ler porque as lágrimas impediram. sou jornalista e professor. tive alunos que jogaram basquete, como o fernando nardi e o henrique aguiar, no palmeiras e amavam isso.
    belíssima homenagem aos anos dourados do basquete brasileiro, e uma grande pena o que seguem fazendo com o amor de quem não ama só a bola no pé.
    grande abraço mas não desista da luta
    josé augusto (zeguto5@gmail.com)

  2. Regis Roberto Marrelli disse:

    Parabéns pelo texto!! Realmente fantástico.
    Tive o prazer de passar os melhores anos de minha adolescência, vestindo a camisa do Palmeiras, onde tive o prazer de jogar, da antiga categoria Mirim até o adulto.
    Vivi grandes emoções, conquistamos vários títulos e o mais importante fiz grandes amigos.São momentos inesquecíveis de minha vida.
    Voltei a ter o prazer de vestir essa camisa, desta vez como técnico, a emoção foi a mesma, poder sentir o calor e amor dessa torcida, poder ver a cada jogo o ginásio mais cheio.
    Infelizmente o sonho de tentar fazer o Palmeiras voltar a ser grande, no Basquete, acabou.
    Deixo aqui meu agradecimento a esse grande clube e a pessoas como você, apaixonadas….
    Abraço Regis Marrelli

    • Mister,

      MUITO OBRIGADO POR TUDO!!!

      Agradeço pela sua correção, conduta e amor pelo nosso querido Palmeiras!

      Voce faz parte dessa linda história. E pode ter certeza que estaremos sempre lutando por um Palmeiras forte em tudo…

      Enquanto tiver lucidez, força e energia farei de tudo para que o basquete palestrino retome a sua grandeza.

      Hoje, infelizmente, o momento é obscuro. O pensamento é limitado. Os ideais são rasteiros.

      Mas isso um dia muda… Somos perseverantes. Trabalharemos para reerguer tudo novamente.

      Uma das maiores virtudes do homem é se permitir o recomeço! E eu serei um soldado na linha de frente para que isso aconteça!

      Grande Abraço e Sucesso nos seus novos caminhos! Estarei torcendo pelo amigo onde voce estiver

  3. siro casanova disse:

    Amigo e irmão Galuppo , MARAVILHOSO TEXTO !!!!
    Agradeço a menção do nome da minha família , e sem falsa modéstia , meus irmãos Flavio , Renato e Claudio defenderam nossas equipes de base e eu pude ajudar como Diretor até o fim de 2015.
    Como tenho 63 anos e já vi momentos iguais a este acontecerem e depois conseguirmos renascer , espero que isto ocorra o quanto antes novamente!

    Saudações Alviverdes !

    Siro Casanova

    • Grande Sirão!!!

      Casanova, Palmeiras e Basquete são uma coisa só! Muito Obrigado por tudo que fizeram – e ainda fazem – pelo nosso querido clube.

      Logo o basquete vai renascer! Tenho fé!

      Saudações Alviverdes, meu querido amigo

  4. Carlos D. Massoni Jr. disse:

    Carlos Domingos Massoni, vulgo mosquito, foi campeão mundial e não está na lista dos jogadores campeões mundiais que defenderam o palmeiras, gostaria de saber o porquê?

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